O drama do amor proibido do infante D.Pedro, filho de D.Afonso IV, com a dama galega Inês de Castro e a morte desta é indubitavelmente um dos temas mais mediáticos da História de Portugal. A mim, desde jovem que sempre me causou bastante estranheza a justificação que nos era dada de que Afonso IV a quisera matar pelo facto de ser espanhola (mais precisamente castelhana) e de que o seu hipotético casamento com D.Pedro, futuro rei de Portugal colocaria em risco a independência de Portugal. Mas porquê, se a maior parte das rainhas que casaram com reis portugueses e nomeadamente na época medieval, eram castelhanas? Era castelhana por exemplo, a rainha D.Beatriz, mãe de D.Pedro. Há alguns anos atrás li um dos livros que na minha opinião melhor romanceia este drama e que é “Inês de Portugal” de João Aguiar (1997, Edições Asa) e compreendi a trama tecida não só por Inês de Castro, mas principalmente por seus irmãos, em especial por Álvaro de Castro, que é consensual entre vários historiadores, nomeadamente por Bernardo Vasconcelos e Sousa, que a expõe no seu livro “D.Afonso IV” (2005, colecção Reis de Portugal editada pelo Círculo de Leitores). Nessa trama, de “assalto ao poder” da família Castro, uma das mais poderosas de Castela, opõe-se as famílias nobres tradicionais portuguesas, receosas de perderem o seu poder e influência.
Acontecimentos com a importância da morte de Inês de Castro, que foi planeada e executada (podemos dizer “quase”, porque antes do momento fatal virou costas) pelo próprio rei, fazem pensar. Não teria sido mais fácil ao rei mandar matá-la ou simplesmente concordar com a sua morte? Qual a razão que leva um rei, de altos ideais cristãos querer matar uma mulher, mãe de filhos, pelas suas próprias mãos,
quando, digo novamente, a poderia ter mandado matar? Porquê? Não encontrei
ninguém a fazer esta pergunta que me parece natural. Fui à História procurar respostas e uma das que encontrei foi o facto de Inês de Castro ser filha adoptiva daquele que D.Afonso IV considerava o seu principal inimigo: D.Afonso Sanchez, seu meio-irmão, filho de seu pai D.Dinis, a quem disputara a herança do trono e que levara inclusive à guerra civil entre o então infante D.Afonso e o seu pai, o rei D.Dinis. Numa época em que mais importantes que as pessoas, eram as famílias a que pertenciam, seria impossível que D.Afonso IV não visse em Inês de Castro, a continuação da contenda com D.Afonso Sanchez, filho bastardo de el-rei D.Dinis, que lhe quisera usurpar o trono. Esta é uma das ideias desenvolvidas em “Até ao Fim dos Tempos”, ideia esta que já durante a sua redacção, vi a confirmação do seu nexo pela historiadora Ana Rodrigues Oliveira na sua obra “Rainhas Medievais de Portugal” (2010, Edições A Esfera dos Livros), no capítulo dedicado a Inês de Castro.
Outro desconhecimento histórico é a causa da morte de D.Constança, que na Crónica dos Sete Primeiros reis de Portugal é referida ter acontecido quando do parto de uma criança de nome Maria, quando a filha que D.Constança teve com o nome de Maria, já tinha 6 anos à data da morte da mãe e não é conhecida outra filha do mesmo nome a D.Constança. Como se costuma perguntar nos romances policiais: qual a pessoa que mais lucraria com a morte de D.Constança? Sem dúvida que Inês de Castro, que ficaria com o caminho livre para D.Pedro, como realmente ficou. É que, enquanto D.Constança foi viva e após o rei D.Afonso IV ter compreendido as suas intenções, Inês de Castro foi expulsa e mantida fora do reino, o que não permitiu que se encontrasse (pelo menos amiúde) com D.Pedro e tivesse filhos dele, o que só veio acontecer após a morte de D.Constança. Esta, quando percebeu o que se estava a passar entre Pedro e Inês, convidou esta para madrinha do primeiro filho do casal real de nome Luís, uma vez que segundo as convenções da época o parentesco de compadre/comadre era tão importante que era impeditivo de algo mais forte como o casamento. Ora, o pequeno Luís morre prematuramente e a desconfiança do rei sobre as causas dessa morte poderia ser, esse sim, um motivo suficientemente forte para que Afonso IV quisesse executar Inês com as suas próprias mãos, o que acabou por não fazer.
Para além das personagens que normalmente aparecem nas narrativas sobre Pedro e Inês, em “Até ao Fim dos Tempos” tentou-se alargar um pouco o círculo de personagens, com a inclusão de figuras que não deixaram certamente de ter bastante influência no pensamento do rei Afonso IV, como seja D.Lopo Pacheco e a sua mãe, a rainha Santa Isabel, mas não só. O facto de D.Afonso IV ser um dos poucos reis de quem não se conhece filhos ilegítimos (o que não é comum para a época), poderá ter forte influência de sua mãe (e também da experiência negativa que teve com os seus irmãos bastardos, que não quereria ver repetida). Mas para além das duas figuras já referidas, incluiu-se ainda a presença da irmã mais velha de Pedro, Maria, rainha de Castela que sofreu desonras de seu marido Afonso XI de Castela e a irmã mais nova, Leonor, que é normalmente ignorada nos romances da época e cuja trágica morte às garras da peste em Aragão (cujas cartas apresentadas no romance são totalmente inventadas), serviu para levantar a questão da origem do mal e da morte e da sua permanência num mundo supostamente já salvo pela vinda de Cristo. Esta questão, seria com certeza uma das questões mais angustiantes numa época em que poderíamos dizer que a religião cristã apresentava laivos de fanatismo religioso, quer fosse relativamente aos seguidores de Maomé, quer fosse aos judeus. E sobre esse fanatismo religioso, fazendo a ligação entre essa época histórica e os dias de hoje, é levantada a questão do seu sentido, quando para os muçulmanos, Jesus Cristo é considerado um profeta e vem referido no Corão.
Questão levantada a propósito da batalha do Salado, que tem sido uma página
importante da história ibérica com uma fundamental participação portuguesa, bastante ignorada nos romances históricos. A incompreensão e a perseguição ao judaísmo são também focados no romance a propósito da peste. A religião, a par do sexo, era com certeza uma das componentes mais importantes da vida daquela época e por isso, “Até ao Fim dos Tempos” está cheio de referências religiosas, que quotidianamente enquadravam a vida e a morte. Por isso se escolheu dividir o romance em 7 partes (a que chamei “Tempos” como os 7 dias da narrativa da criação do mundo do Génesis) apresentando a obra o nome de “Até ao Fim dos Tempos”, que corresponde à inscrição existente no túmulo de D.Pedro.
Pedro e Inês, juntos, lado a lado, até ao fim dos tempos.